Entrei, sentei-me e olhei para o lado. Lá estavas tu, mais perto do que esperava, mais longe do que queria.
Olhei e vi-te. A princípio não te reconheci, mas sabias que eras tu. Só podias ser tu.
Desviei o olhar.
Tão disfarçadamente quanto poderia parecer, olhava para confirmar a certeza de que eras mesmo tu e te olhar. Olhar o teu cabelo novo, diferente do que a minha memória se lembrava.
Estavas bonita como sempre. Linda.
E eu tão longe.
Ignorei a conquista fácil e inesperada de uma noite para te poder ver por mais uns segundos.
Ignorei a conversa séria do momento para te poder sentir mais perto.
Enquanto falava, olhava para onde estavas ou até mesmo fechava os olhos momentaneamente na tentativa de ter ver no escuro de um simples piscar de olhos.
Os piscar de olhos podem ser tesouros. Podem-nos transportar para longe, para bem longe durante breves instantes. Os piscar de olhos podem-se tornar eternos e fazer-nos estar onde quisermos com quem quisermos.
O que eu queria era estar num lugar, fosse qual fosse, longe dali e contigo.
" - Vou mijar".
Enquanto isso, ouço a música e algo de estranho se apodera de mim. Algo que há algum tempo não sentia: o meu coração.
Com a minha mão direita agarro no peito e aperto-o, com força. E penso em ti.
De volta à multidão e largo o peito, mas continuo a senti-lo tremer, assim como todo o meu corpo tremeu durante todo o tempo em que estivemos "juntos".
E saio do bar.
Saio com a pressa de voltar para junto de ti.
Meia hora pareceu dois dias, uma semana, um mês. O tempo que já não te via.
Essa meia hora era a contradição daquilo que tenho vindo a pensar. Passei de carro à porta de tua casa todos os fins-de-semana, de madrugada, para ver o teu carro, para saber que estavas perto e agora ausentava-me, como que a negar aquilo que queria realmente.
E voltei.
E sentei-me a um metro de ti. Eu de costas. Tu de costas.
Era tão simples. Tudo poderia ser tão simples. Deixar tudo para trás e virarmo-nos. Sei que somos de letras, mas era tudo uma questão de matemática. Uns simples 90º e ficávamos um ao lado do outro. Uns simples 180º e ficávamos de frente. Aí, deixava de funcionar a matemática e passava a actuar a química e, talvez, muito mais a física. "Todos os corpos se atraem mutuamente".
Simples.
Mas não. Como os demais humanos gostamos de complicar. E assim ficámos, de costas. De costas a fingir que nunca nos conheceramos. De costas, a fingir que nunca nos conheceramos e a fingir que ouviamos todos à nossa volta. De costas a fingir que nunca nos conheceramos e a fingir que ouvíamos todos à nossa volta e quando na verdade tudo o que importava éramos nós.
Os dois, sem mais ninguém.
E tu levantas-te e sais. E eu de costas a fingir que não te vejo. A fingir que não te vejo mas a observar-te até saires da porta.
Tristeza.
Passado algum tempo saio eu.
E mais uma vez lá estas tu, encostada à grade, de frente para mim.
E, cobardemente, olho na direcção oposta, ignorando o coração. Assim como fiz logo que saiste e foste embora de vez. Queria-te mandar uma mensagem para falarmos, para estar contigo, mas não posso fazê.lo.
Está combinado desde 22 de Março de 2010.
A data em que te perdi.
E não me apetece escrever mais.
sábado, 16 de outubro de 2010
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