dois dias depois regresso àquela que foi a nossa cama por umas horas, onde partilhámos tanta coisa simples, tanta coisa boa.
nada de carnal, não.
partilhámos muito mais que aquilo que estava à vista dos olhos. Abrimos sim os olhos do coração, já fechados há muito tempo. Esses olhos apenas são abertos em mim quando estou contigo de verdade.
Deitas-te, encostas-te a mim e eu finjo que tudo está normal, que é um acto natural que não deve ser encarado com especial importância.
Minto.
sempre que me tocas estremeço por dentro, vestindo a máscara que não quero que vejas por fora.
vais mais longe, também tu fingido que é algo natural, e deitas-te no meu colo.
acaricio o teu cabelo, o teu pescoço, as tuas orelhas. Até que tu adormeces.
E eu ali, contigo, um anjo desprotegido à minha frente, com a tua mão desalinhada deitada na cama e eu sem poder fazer muito mais sinto-te. sinto-te o mais que posso e tento arrecadar em mim todas essas sensações e sentimentos que me despertas.
Por isso escrevo aqui, para perpetuar esses momentos que me podem fugir da cabeça, já cansada.
O teu cheiro invade-me, preenche-me e enche-me de saudade.
ao passar a mão pelo teu cabelo passo-a de seguida pelo meu nariz, para poder sentir o teu odor e pedir que ele não se desvaneça.
Hoje, dois dias depois dessa noite, deito-me naquela que foi a nossa cama e sinto o teu odor, que parece ficar intocável apesar dos dias que passam.
deito a cabeça na almofada, inspiro o mais que posso na ânsia de te ter aqui, e não só o teu cheiro, até que adormeço.
adormeço contigo em mim, não fisicamente, mas algo mais que isso.
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